terça-feira, 27 de outubro de 2015

E a família, como vai?

Encontramos na bíblia uma das famílias mais complicadas da história da humanidade. A ironia, porém, é que essa é a família de um dos homens mais piedosos do Antigo Testamento – o rei Davi.

Davi é descrito como um homem segundo o coração de Deus (Salmo 89.20 e Atos 13.22), isso, porém, não evitou que cometesse erros sérios – erros esses que vieram com a conquista do poder. Em seu orgulho e cegueira espiritual, ele tomou uma mulher que não era sua e mandou matar seu marido. Quando esse pecado foi exposto, causou um impacto desastroso em sua família. Seu filho Amnon imitou o comportamento do pai e acabou por violentar sua meia-irmã – Tamar, irmã de Absalão. Davi ficou indignado mas não tomou qualquer atitude com relação a Amnon. Como conseqüência Absalão tornou-se cada vez mais amargurado e rebelou-se contra o pai. Davi não foi um bom modelo para seus filhos. Sua maneira de se relacionar com seus filhos é refletida em sua atitude com relação a Adonias, outro filho rebelde: "Jamais seu pai o contrariou, dizendo: Por que procedes assim?" (I Reis 1.6).

Sua fraqueza como pai gerou grande dor para a família. Absalão, vendo que o pai nada fizera com relação a Amnon, decidiu fazer justiça com as próprias mãos, matando Amnon. A família ficou irremediavelmente dividida e ferida.

A história da família de Davi é apenas um exemplo. As feridas presentes nas famílias nos dias de hoje são tão reais e, possivelmente, tão complexas quanto aquelas.

Feridas acontecem em todas as famílias. Acontecem como conseqüência de questões tais como poder e controle, diferença de personalidades, finanças, maneiras diferentes de educar os filhos, insegurança, competição, sentimentos mal entendidos, necessidades não satisfeitas, abuso, infidelidade, etc.

Mas se é verdade que feridas acontecem, é também verdade que a cura pode acontecer.

A cura, porém não acontece ignorando o problema ou fingindo que ele não existe. A cura é sempre conseqüência da disposição de encarar o problema e sermos honesto conosco mesmos com relação ao problema que estamos vivenciando.

Para iniciarmos a discussão da cura das feridas em família, seria bom perguntarmos: "Quais são os passos na cura do nosso relacionamento com Deus?" Creio que primeiramente deve haver confissão honesta. Em segundo lugar deve haver disposição para abandonar o comportamento errado e, em terceiro lugar, precisamos abrir nosso coração para a presença de Deus. Os mesmos passos são necessários no nosso relacionamento em família. O plano de Deus para restaurar nosso relacionamento com ele é o padrão para curar e restaurar nosso relacionamento com as outras pessoas.

Então, para que haja cura dos relacionamentos em nossos lares, são necessárias pelo menos três atitudes:


1. É necessário que haja confissão honesta:

Se desejamos a cura, não podemos continuar empurrando os problemas para "debaixo do tapete". Não podemos continuar "culpando a outra pessoa" pelo resto da vida.. Não podemos ficar esperando que a outra pessoa "esqueça o que aconteceu" para que não tenhamos que nos desculpar. Se estamos errados precisamos ter a coragem e a maturidade de admitir.

Podemos agir como Davi e insistir que temos o direito de fazer as coisas como fazemos, ou podemos encarar nossas enfermidades e sermos curados.

Lembra-se da pergunta que Jesus fez ao paralítico à beira do tanque de Betesda? A pergunta de Jesus, a principio, parece sem sentido: Queres ser curado? (João 5.6). Mas Jesus continua fazendo a mesma pergunta a nós hoje: Você deseja ser curado ou deseja continuar a viver uma vida emocionalmente confusa, simplesmente porque tem medo das mudanças que acontecerão quando você for curado? Você quer ser curado ou quer ter razão em todas as questões? Se não podemos admitir que às vezes estamos equivocados, então não existe qualquer esperança de cura. Se não podemos ser honestos com relação às nossas enfermidades relacionais, seja por orgulho ou por medo, então não existe esperança de cura.

Precisamos admitir que muitas vezes falhamos conosco mesmos, com Deus e com as pessoas, gerando machucaduras. Precisamos admitir... e pedir perdão!


2. É necessário que haja disposição para abandonar a atitude que machuca:

Em termos bíblicos, isso é arrependimento. Assim como abandonamos as coisas que dificultam nosso relacionamento com Deus, precisamos abandonar também aquilo que dificulta nosso relacionamento com nosso cônjuge ou com nossos filhos e filhas.

Continuar a fazer algo que sabemos que fere outra pessoa não é apenas errado, é cruel!

Às vezes grande animosidade pode nascer a partir de algo aparentemente trivial. Às vezes nem lembramos mais a razão original da animosidade, mas a hostilidade continua presente no relacionamento. Algo tão pequeno tornou-se grande, ou vários pequenos detalhes foram sendo acumulados gerando uma situação insuportável. É necessário que haja reconhecimento e arrependimento. Não podemos permitir que nosso orgulho nos impeça de fazer o que for necessário para trazer cura ao nosso lar. Precisamos abandonar a atitude que machuca.

Outro dia, vi um pequeno pássaro". Aquele pequeno pássaro voou diretamente contra o vidro da janela. O vidro era transparente e, aparentemente o pássaro  estava convencido de que conseguiria atravessá-lo. Eu pensei que a dor da primeira tentativa o convenceria a não mais tentar. Entretanto, poro um bom tempo ele deu continuidade àquele comportamento autodestrutivo, obviamente colhendo o mesmo resultado: frustração e dor.

A lição que aprendi com o pássaro, é que se eu continuo a agir da mesma maneira estúpida, continuarei colhendo os mesmos resultados estúpidos. Se desejo que a dor seja aliviada e que a ferida seja curada, preciso abandonar a atitude de me fere e fere as outras pessoas. Não precisamos nem desejamos uma família machucada e sangrando. Assim, "se possível, quando depender de vós, tende paz com todos os homens..." Rm 12.18.


3. É necessário que haja lugar para a outra pessoa em nosso coração:

Às vezes criamos uma tal barreira contra a outra pessoa que ela não tem qualquer chance de se reconciliar conosco. Distorcemos, "demonizamos" e decidimos ignorar para sempre a outra pessoa.

A cura dos relacionamentos em nosso lar envolve confissão honesta, disposição para abandonar a atitude que machuca e, finalmente, um coração aberto para a outra pessoa. Isso é perdão! "sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou!" Efésios 4.32.

A realidade é que quando um conflito é resolvido, a intimidade, de fato, aumenta entre as pessoas envolvidas. Conflitos não resolvidos separa as pessoas, mas quando é encarado e tratado com honestidade, o resultado é a aproximação.


Conclusão:

Para mim, um texto fundamental para compreensão da fé cristã é II Coríntios 5.19: "a saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação". Gosto desse texto porque, em primeiro lugar, mostra o que Deus fez, em Cristo, por nós. Ele mostrou que há lugar para nós em seu coração. Ele permitiu a reaproximação. Ele não é contra nós. Ele está "de bem" conosco. Em segundo lugar, o texto mostra a nossa responsabilidade: "... e nos confiou a palavra da reconciliação".

Nosso ministério maior é o testemunho da palavra da reconciliação. Essa é a essência do evangelho. A reconciliação com Deus através de Jesus Cristo nos capacita a sermos instrumentos de reconciliação onde estivermos, em especial no seio da nossa família.