quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A dinâmica da vida cristã


Fica evidente, quando consideramos o tema da dinâmica da vida cristã, no Novo Testamento (NT), que estamos diante de mais uma tensão bíblica que merece toda a atenção de todos que desejam viver de modo agradável a Deus.

O desenvolvimento da vida cristã é responsabilidade de Deus ou do ser humano?

Pode-se dar ênfase a um lado em detrimento do outro, e, quando isso acontece, é possível ter-se a impressão de que o desenvolvimento dessa vida depende mais da ação divina ou mais da ação humana. Quando se age assim temos uma visão distorcida da dinâmica da vida cristã.

Um estudo sério sobre o funcionamento da vida cristã, revelará que:  
Todo cristão deve desenvolver um equilíbrio entre a ação divina e humana no desenvolvimento da sua vida cristã. Analisemos cinco aspectos:

I – TEORIAS BÁSICAS SOBRE A DINÂMICA DA VIDA CRISTÃ
Quando se estuda o desenvolvimento que o cristão deve ter em sua vida, depois de sua inclusão “em Cristo”, encontramos basicamente três teorias sobre o funcionamento da vida cristã:
1. O cristão é capaz de desenvolver, por meio do esforço próprio, a sua vida cristã;
2. O cristão é incapaz de desenvolver a vida cristã por meio de seus esforços próprios;
3. O cristão, em parte, é capaz e, em parte, é incapaz de desenvolver a vida cristã por meio de seus esforços.

II – O PAPEL DE CRISTO NAS TEORIAS SOBRE A DINÂMICA DA VIDA CRISTÃ
Quando analisamos essas possíveis maneiras de desenvolvermos a vida cristã, o papel de Cristo deve ser bem entendido. Em cada uma dessas teorias a atuação de Cristo é a seguinte:
1. Na primeira teoria, por entender-se que o cristão é capaz de desenvolver a vida cristã por si mesmo, Cristo é um exemplo de vida a ser imitado – 1 Pe 2.21;
2. Na segunda teoria, por entender-se que o cristão não consegue por si mesmo desenvolver sua vida cristã, Cristo é quem fornece a energia vital que capacita o cristão desenvolvê-la – Jo 15.5;
3. Na terceira teoria, por entender-se que o cristão tem condições parciais para o desenvolvimento de sua vida cristã, Cristo torna-se parceiro fundamental nesse desenvolvimento – Gl 2.20.

III – EXPLICAÇÃO DAS TEORIAS SOBRE A DINÂMICA DA VIDA CRISTÃ

1. O cristão é capaz de desenvolver, por meio do esforço próprio, a sua vida cristã:
 A. Entende-se, por meio dessa teoria, que a vida cristã é inteiramente um presente de Deus, mas a apropriação do que Deus nos oferece requer um trabalho árduo e vigoroso por parte do cristão.
 B. A expressão: “Faça a tua parte que eu te ajudarei”, é uma síntese desse pensamento. Entende-se que não é possível viver uma vida vitoriosa sem obediência, sem esforço deliberado, sem disciplina cuidadosa. Usa-se a terminologia do NT para se argumentar em favor dessa posição: o cristão deve lutar, combater, correr, trabalhar, sofrer, resistir, agonizar, mortificar e desenvolver outras ações (verbos) que expressam energia persistente.
 C. Nessa teoria Deus dá as ordens, e os cristãos são os agentes do cumprimento das ordens divinas. Na ocasião da obediência às ordens, Deus se torna passivo, e o cristão ativo. Ao pregarmos ou ensinarmos dando ênfase às virtudes que os cristãos devem possuir, estamos defendendo essa teoria.

2. O cristão é incapaz de desenvolver a vida cristã por meio de seus esforços próprios:
 A. Entende-se, por meio dessa teoria, que o homem, antes dele pecar, possuía uma vida cuja força motriz era Deus. Depois do pecado, o homem foi invadido por uma força estranha que passou a dominá-lo e movê-lo. Essa força invasora é o pecado (Rm 7.17-23), e essa invasão tornou-se comum a toda humanidade (Ef 2.1-3). Assim, o homem não tem alternativa se não obedecer a esse estranho senhor.
 B. Quando o homem se torna cristão, a natureza pecaminosa ainda continua agindo mesmo contra a vontade do cristão. Paulo, em 1Coríntios 3, fala do cristão carnal, e, no texto de Romanos 7, ele diz que embora desejasse fazer o bem, não conseguia realizá-lo. Por mais que o cristão se esforce, ele não consegue produzir as virtudes cristãs, pois elas não são resultados da ação humana, mas são fruto do Espírito Santo (Gl 5.22).
 C. Diante dessa incapacidade, o cristão deve render-se a Cristo e confiar plenamente que ele operará o desejar e o efetuar (Fl 2.13) em sua vida. Ao agir assim, o cristão obtém a vitória “em Cristo”, pois quem produz o fruto é o Espírito Santo. Afinal, Jesus deseja viver a Sua vida em nós. 
Quando entendemos dessa maneira o desenvolvimento da vida cristã, Deus é o agente, e o cristão, o paciente. Deus é ativo, e o cristão, passivo. 

3. O cristão, em parte, é capaz e, em parte, é incapaz de desenvolver a vida cristã por meio de seus esforços.
 A. Essa teoria afirma que o cristão depende de seus esforços e da ação poderosa de Cristo no desenvolvimento da vida cristã. O cristão é visto como possuidor de qualidades cristãs, mas, ao mesmo tempo, possuidor de características essencialmente humanas. As qualidades são aceitas por Deus, e as características humanas vão sendo removidas ou transformadas pela ação do Espírito Santo.
 B. É interessante notarmos que certos tipos de personalidades têm mais facilidade de pôr em prática certas virtudes, e, por outro lado, outras personalidades têm mais dificuldades em desenvolver outras qualidades. Os introvertidos tendem a serem mais fingidos, enquanto os extrovertidos têm dificuldades em exercer o domínio próprio. Por outro lado, os introvertidos têm maior facilidade em auto dominar-se, enquanto os extrovertidos têm mais facilidade de serem sinceros. Quando isso acontece, o homem é ativo, e Deus, passivo.
 C. Em contraste com esse ponto, temos o fato de que os defeitos ou as características humanas não são aceitas por Deus. Por Deus ser perfeito (Mt 5.48), essas imperfeições devem desaparecer por meio da ação poderosa do Espírito Santo. Por isso o cristão deve confessar seus defeitos – pecados – a Deus (1 Jo 1.9) e permitir que, em vez dele mesmo, o Espírito Santo produza uma nova vida, com características e virtudes cristãs (Rm 8.3 e 11 com Gl 5.16). Quando isso acontece, em lugar de meu ódio, a minha vida manifestará o amor divino, e em lugar de minha ansiedade, o Espírito Santo me fará alguém mais paciente.   

IV – O CRESCIMENTO NA DINÂMICA DA VIDA CRISTÃ
Como o crescimento é um dos alvos para todos os cristãos, cada teoria tem uma maneira de explicá-lo na dinâmica da vida cristã:
1. A primeira teoria afirma que pela prática de diversas atividades, por parte do cristão, como: oração, leitura da Bíblia, disciplina pessoal, comunhão com outros cristãos, vitória sobre a tentação e, principalmente, pela atuação no serviço eclesiástico, acontecerá o crescimento na vida cristã.
2. Com base na segunda teoria, muitos entendem que tudo o que o cristão consegue fazer são realizações humanas. Como o cristão é incapaz de produzir algo genuinamente bom, o melhor é ele confiar em Deus entregando-se totalmente a ele. A leitura da Bíblia, a oração e até as atuações no serviço eclesiástico são produtos da ação divina na vida do cristão, e não meios de se conseguir o crescimento. Como resultado dessa ação divina, tudo é considerado e usado por Deus para promover o crescimento (Hb 5.11-14).
3. Na terceira teoria, o crescimento acontece a partir das ações conjuntas do homem e de Deus, conforme a primeira e a segunda teoria.

V – ENTENDENDO O CRESCIMENTO NA DINÂMICA DA VIDA CRISTÃ
1. Sem dúvida o crescimento que se tem como alvo (1 Pe 2.2; 2 Pe 3.18) não se refere ao crescimento físico.
2. Entende-se que o crescimento é integral (Ef 4.15).
 A. O crescimento integral envolve o aspecto intelectual – o mais enfatizado – o qual envolve o conhecimento bíblico, o conhecimento literário, o conhecimento teológico, o conhecimento ético etc. Todos esses aspectos resumem-se na compreensão, no entendimento dos diversos fatos da ação divina no ser humano.
 B. O crescimento integral envolve o aspecto emocional – o cristão necessita desenvolver adequadamente a sensibilidade emocional para com Deus, para consigo mesmo e para com o seu próximo. Precisa integrar o conhecimento cristão à sua vida emocional, e isso ocorre num processo.
 C. O crescimento integral envolve o aspecto espiritual – o cristão necessita desenvolver sua cosmovisão espiritual, uma confiança cada dia maior em Deus (2 Co 10.15; 2 Ts 1.3). Assim, o cristão necessita crescer na dependência de Deus. O NT fala constantemente no crescimento experimental (Jo 17.3; 2 Pe 3.18).
 D. O crescimento integral envolve o aspecto moral – o cristão não apenas dependerá da manutenção e sustento de Deus, mas também deverá crescer em sua postura ética e comportamental e em suas decisões (1 Re 18.21; Lc 9.62; Tg 4.8).
 E. O crescimento integral envolve o aspecto funcional ou operacional – Deus concede a cada cristão uma (s) função (ões) para ser (em) desempenhada (s) e desenvolvida (s) na igreja (Rm 12.4-8). O cristão deve aperfeiçoar aquilo que Deus lhe deu – e essa é a especialização carismática, que envolve agir para glorificar a Deus, para edificar os irmãos e demonstrar ao mundo o reino de Deus.

CONCLUSÃO
 Deve ficar claro que o crescimento na dinâmica da vida cristã deve ser equilibrado. 
Quando isso acontece evitamos os seguintes absurdos:
1. Um cristão inteligente, conhecedor de muitos conceitos, das diversas doutrinas, mas imaturo experimentalmente.
2. Um cristão piedoso, consagrado, com muitas experiências, mas ignorante em relação às doutrinas cristãs.
3. Um cristão ativista, funcional, realizador, mas com visíveis falhas morais.
4. Um cristão comportamentalmente correto, irrepreensível, mas inoperante eclesiasticamente.
Quando a vida cristã é desenvolvida equilibradamente, com a participação do cristão, contando com a poderosa ação divina, certamente ela será uma vida que glorificará a Deus, demonstrará ao mundo a realidade já presente do Reino divino e trará edificação ao Corpo de Cristo!