quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A FAMÍLIA CRISTÃ E A CIDADE

Texto básico: Hebreus 13.1-6

Introdução

Família e Urbanidade — olhar a cidade de maneira diferente

A família habita um lugar. Ao dirigirmos nosso olhar à configuração do espaço urbano, podemos perceber os desafios que ele impõe à família. As primeiras relações são estabelecidas na privacidade das casas, mas cada vez mais cedo este mundo amplia-se.

A escola, o trânsito, os coletivos, os sons, as imagens invadem nossas janelas. As crianças não convivem mais somente com pessoas que conhecem. Elas descobrem cada vez mais os meios de comunicação e a internet. As fronteiras são cada vez menores.

O aglomerado da cidade leva cada vez mais a uma inversão de valores. Hoje é mais importante ter do que ser. Gente hoje, para muitos, é sinônimo da possibilidade de ganhar dinheiro.  Talvez o shopping center seja um bom exemplo desta inversão. Hoje ele tem todo o seu valor e ritual. As pessoas vão passear neste espaço com roupas bonitas. A arquitetura é parecida com a de um templo. A discriminação fica bem visível, não se acolhe a todos. O que dizer dos “rolezinhos”? O símbolo maior do shopping é o consumismo (será que no lugar da fé?).

Neste sentido, a casa (a família) hoje desempenha um papel fundamental de contraponto, trazendo o acolhimento, as pessoas, o ser valorizado e a fé de volta à simplicidade.

Exemplos bíblicos que inspiram

Lc 10.38 – Casa de hospitalidade e ensino de Jesus

Rm 16.3 e 1 Co 16.19 – Casa de cooperação com o evangelho e reunião da igreja

Sl 127.5 – Casa que testemunha na praça

Lc 22.10-13 – Casa que recebe Jesus e os seus discípulos pra um encontro memorável, íntimo e profundo.

O texto de Hebreus 13.1-6

Como o texto em estudo fala duas vezes em lugares diferentes sobre aquilo que é vivido em um círculo familiar, resolvemos aplicar o texto todo ao contexto da família cristã e sua atuação cidadã. Veja que ação abrangente, influente e preciosa a família teria em uma cidade hoje.

1. O amor fraternal (v.1). Essa virtude é tão importante que representa a marca, ou distintivo, do verdadeiro discípulo de Jesus (cf. Jo 13.34-35). Sem o amor fraternal de nada servem os dons, a realização de boas obras, o culto etc. (1Co 13).

2. A hospitalidade (v.2). A hospitalidade é tão criativa e acolhedora que pode ser prestada não somente aos estranhos (v.2), mas também aos pobres (Lc 14.13), e até mesmo aos inimigos (Rm 12.20).
Na época em que foi escrita a Epístola aos Hebreus, muitos cristãos haviam perdido todos os seus bens em consequência da perseguição que lhes movia as autoridades constituídas. Neste aspecto, a hospitalidade trazia alento a esses servos de Deus e demonstrava que outros crentes poderiam servir ao Senhor abrindo suas casas para lhes servirem de abrigo. Entretanto, essa simpática atitude, principalmente em nossos dias, ficou muito difícil e complexa em uma sociedade tão insegura e corrupta.

3. O valor da beneficência (v.3 e 6). O escritor não se esqueceu da importância da beneficência cristã. Exortou aqueles crentes a que se lembrassem dos que estavam presos e dos maltratados como se estivessem no lugar deles. Um crente perseguido facilmente seria lembrado por seus irmãos, mas os que permaneciam presos por muito tempo poderiam ser esquecidos. Há muitas pessoas que são perseguidas e presas por causa de sua fé em Cristo, como também há aquelas que cumprem pena por terem transgredido a lei dos homens. Mas tanto um como o outro não podem ser desprezados pela igreja do Senhor.

4. O valor do matrimônio (v.4). A expressão “venerado seja” nesse texto denota elevado grau de respeito e consideração para com o matrimônio. Muitos desprezam o casamento para viver uma vida desregrada, dissoluta e descompromissada. A vida cristã exige compromisso sério não apenas com Deus e a igreja, mas também com a sociedade e a família; e esta última começa com o nosso cônjuge. Quaisquer comprometimentos sexuais ilícitos — a prostituição, o adultério — são duramente condenados por Deus, e quem pratica tais coisas receberá dele o justo juízo.

5. A ameaça do materialismo (v.5). Ter contentamento com o que já se tem não é um argumento em prol do status quo econômico. Refere-se, antes, a uma atitude mental. O contentamento significa mais do que uma aceitação passiva do inevitável. Envolve um reconhecimento positivo de que o dinheiro é relativo, um instrumento e não um dono.

6. O auxílio de Deus. As palavras tirada dos salmos (v.6) são apropriadas porque afirmam o caráter imutável de Deus como auxílio. Quando Deus é o auxílio, não é surpreendente que a família cristã pode dizer diante de uma sociedade perversa: não temerei. Os filhos de Deus frequentemente têm comprovado a veracidade das palavras do salmista: que me poderá fazer o homem?, porque, embora seja expressa como pergunta, não deixa de subentender uma resposta negativa.

Perguntas para discussão em grupo

1. Até que ponto o amor fraterno pode ser vivido pela família cristã em favor dos seus vizinhos? Quais são as principais necessidades das pessoas que nos rodeiam?

2. A hospitalidade atende a quais necessidades das pessoas que moram em nossa comunidade? Como ser criativo?

3. Como a família pode atender as pessoas presas e maltratadas da cidade?

4. Que tipo de sofrimento as pessoas da nossa cidade passam? Será que temos alguns conterrâneos morrendo de aids? Quantas crianças sofrem com deficiência? Quantos moradores de rua Viçosa possui? É possível, pelo menos, ficarmos por dentro destes dados?

5. Famílias cristãs satisfeitas e dispostas a ajudar com os seus bens podem oferecer que tipo de ajuda para a cidade?

6. Do que a sua família tem medo em relação ao nosso município? Em que sentido a confiança plena em Deus pode nos tornar mais atuantes, ou nos tirar do marasmo e omissão?

Conclusão

O homem, a mulher e filhos enquanto cuidado, cuidando do ser

Podemos visualizar nossas famílias como o lugar primeiro de sinceridade e vida, onde surge o cuidado, abertura de espaço, onde cada um de nós, velado pela solicitude, pode dar curso a nosso ser percorrendo o caminho do dia que leva à noite, do nascer ao morrer, habitando a cidade na essencialidade do ser gente. Vivenciando a cidadania e solidariedade humana, habitando a cidade e com ela mantendo relações de vida e não de morte.

Não poderíamos terminar o estudo de hoje sem a lembrança da poesia e música do pastor Gladir Cabral:

PAZ E COMUNHÃO

Cuida do passarinho e também da flor,
Eles esperam pelo teu amor!
Faz do teu lar um ninho

e do mundo um chão
Onde se plante paz e comunhão!

Para que brote e cresça
A mais viva semente;
Para que a gente tenha o que colher.
Para que o pão que venha a ser por nós assado
Seja um sinal traçado de viver.

Faz uma nova casa
Na varanda do velho chão,
Convida teu irmão pra vir morar contigo;
Planta paredes novas,
Feitas para servir de lar e abrigo.

Faz um café gostoso,
Põe a mesa no teu jardim;
Deixa que assim as plantas
Tenham paz contigo; convida o universo
Faz a festa ganhar maior sentido!

Cuida da tua morada!
Cuida do pequeno mundo!
Deixa teu irmão bem perto
Livre.

Leitura indicada: Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, John Stott. Editora Ultimato, 2014.

>> Autor da Lição:  Jony Wagner de Almeida