terça-feira, 29 de novembro de 2016

UMA ÉTICA CRISTÃ PARA A VIDA (PÓS) MODERNA

Leitura Bíblica; Colossenses 3. 5-17

Falar do ‘mundo contemporâneo’ dá a impressão que as realidades vividas pelas pessoas em todo local são as mesmas, enquanto, de fato, não são. A vida em Porto Alegre é diferente da vida nas margens do rio Tocantins, que demonstra peculiaridades quando comparada com o cotidiano de Minas Gerais, que por sua vez difere da vivência dos Acreanos, e assim por diante. Porém, acredito que no país todo enfrentamos muitos problemas espirituais e sociais semelhantes. E não somente Brasil afora, mas no mundo todo, em todos os locais que vivem uma vida chamada ‘moderna’, ou ainda ‘pós-moderna’.

O teólogo inglês, John Stott, no seu livro sobre questões que os cristãos enfrentam hoje (Issues Facing Christians Today), escreveu sobre temas como: desigualdade social, pluralismo, a possibilidade de o crente influenciar a sociedade, guerra, questões ambientais, direitos humanos, trabalho, racismo, o tratamento de mulheres, o casamento e o divórcio, inclusive a questão de sexo dentro e fora do casamento, aborto e eutanásia, e o homossexualismo, entre outros temas. Ele estava escrevendo sobre estas polêmicas já nos anos 80. Agora, nos dias da internet, podemos acrescentar: violência e romances ilícitos virtuais, entre outros pecados tradicionais que a internet tem intensificado.

Nesta lista podemos perceber que existem conflitos éticos coletivos (que atingem grupos de pessoas e a própria sociedade) como também conflitos pessoais (que atingem o indivíduo) para os cristãos e o/a cristã/o hoje. Percebemos também, que estas questões não são para nós apenas teóricas, que afetam a vida dos outros, porém são realidades em nossas próprias vidas, e nas vidas de nossas famílias e igrejas.

De que maneira devemos lidar com estas situações enquanto cristãos? A Bíblia tem algum conselho para nós para enfrentarmos os problemas contemporâneos?


Reflexão central 1

Bom, para mim, a chave que providencia uma resposta para qualquer situação encontra-se no versículo 17 da nossa leitura bíblica:

“E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.”

Então, a pergunta básica para cada um de nós, em qualquer situação, deve ser “Eu posso fazer isso em nome de Jesus?” Se a resposta for “Não”, ou “Não sei”, devemos então evitar ou parar tal ação. Se a resposta for “Sim”, então podemos continuar felizes e firmes.

Não podemos responder a esta pergunta em um vácuo, dependendo só daquilo que pensamos ou achamos, de acordo com a nossa própria experiência e filosofia. Se for assim, então em um grupo de cem pessoas teríamos a possibilidade de cem respostas éticas diferentes à mesma pergunta. Apesar de várias coisas positivas terem surgido nesta época da pós-modernidade, como a liberdade de expressão, existe o perigo da falta de diretrizes claras para certas questões importantes da vida. Precisamos de um referencial, e como cristãos acreditamos que este referencial é a vontade de Deus expressa na Bíblia.

De fato, o nosso texto para esta reflexão traz um dos melhores comentários na Bíblia sobre o modo em que um crente deve viver na sua vida pessoal. 

Abrem a suas Bíblias em Colossenses 3, e leiam novamente os versículos 5 a 17, digam-nos algumas das maneiras que vocês acham que estes princípios podem fazer uma diferença coletivamente na sociedade, e individualmente nas nossas vidas pessoais…[Nota para o pregador: nesse momento dê bastante espaço para os ouvintes se expressarem. Leve um lápis ou caneta ao púlpito para anotar as ideias, e depois faça alguns comentários, apropriados e rápidos, para valorizar e reforçar os pontos relevantes que foram levantados].


Reflexão central 2

Em Marcos capítulo 12, nosso Senhor Jesus ensinou outro princípio bastante importante para a formação de uma vida ética cristã [Leia vv28-34] 

Nesta conversa entre Jesus e o mestre da lei, podemos entender que o nosso amor para com Deus é intimamente vinculado ao nosso amor para como próximo. E não somente isso: quando lemos os textos do Antigo Testamento a que essa conversa se refere, como Levítico 19, Oseias 6 e Amós 5, podemos descobrir primeiro, que o “próximo” incluí o estrangeiro pobre, excluído (forasteiro). De fato (como Grenzer observe, no seu pequeno livro Primeiro e Segundo Mandamento: Marcos 12.28-34), o mandamento de amar é utilizado na lei de Deus – Torá – apenas cinco vezes: duas vezes em relação amar a Deus (Deuteronômio 6.5, 10.12), uma vez em relação amar ao compatriota judeu (Lev 19.18), e surpreendentemente, duas vezes em relação amar o estrangeiro pobre, excluído (Lev 19.34, e Deut 10.19). 

A segundo coisa que descobrimos nas passagens citadas pelo mestre da lei (elogiado por Jesus), é que Deus rejeita os louvores do seu povo quando eles não estão cuidando das necessidades das pessoas sofridas e excluídas (Amos 5.21-24, veja 1 Samuel 15.22, Oseias 6.6).

Um amor para com o próximo que é regido pelo nosso amor para com o Senhor tem o poder de nos guiar claramente no meio dos nossos conflitos éticos pessoais. Um cuidado para com os excluídos da sociedade tem um poder transformador para os nossos relacionamentos sociais.

Conclusão

Bom, é claro que a ética só é ética quando não é somente teoria, mas sim, ação... 

Nós estamos reunidos aqui envolvidos em uma bela reflexão. Muitos estão talvez ouvindo pensando “Que pensamentos lindos, que mensagem de Deus, essa é uma verdadeira ética cristã.” [Outros podem estar pensando que não tem nada ver, que pregação fútil!]. Porém, o poder do sermão não está no pregar nem no ouvir. O verdadeiro valor da reflexão não se mede pelos pensamentos dos ouvintes ou pelos comentários na porta após o culto. Para o sermão fazer uma diferença cabe ao pregador e aos ouvintes viverem aquilo que foi exposto – essa é a verdadeira ética cristã – viver a mensagem, praticar os ensinamentos de Deus. 

Tomás Sánchez, teólogo peruano, afirma que diante do sermão pregado precisamos “assumir uma mudança radical, um compromisso público, e de oração”, para que a mensagem tenha o seu efeito.

Daí sim, a reflexão pode transformar as nossas vidas pessoais e coletivas, como crentes, igrejas e sociedade.

Então: Como nós vamos nos comportar na nossa vida coletiva e individual? Diante das tentações e conflitos éticos da vida social; no empregar ou trabalhar; nas questões ambientais; no tratar dos direitos dos outros; em relação pessoas diferentes de nós; no tratamento de mulheres; no casamento; na vida sexual e afetiva; em questões de vida ou morte?

Vamos assumir uma mudança radical, um compromisso público, e de oração? Esta é a nossa tarefa como discípulos de Jesus.

Cada um de nós precisa perguntar-se: “Eu posso fazer o que estou fazendo em nome de Jesus?” 

Se a resposta for “Não”, ou “Não sei”, devemos então evitar ou parar tal ação. Se a resposta for “Sim”, então podemos continuar felizes e firmes.

 “E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei-o em nome do Senhor Jesus”


Mark E Greenwood
Fortaleza, abril, 2009

sábado, 26 de novembro de 2016

Russell Phillip Shedd: uma vida de amor à Palavra de Deus

Com enorme pesar, informamos que nosso fundador e presidente emérito, o dr. Russell Phillip Shedd, faleceu na madrugada de hoje.

O velório será a partir de amanhã (27/11) na Igreja Bíblica Evangélica da Comunhão, Rua Tito 240, Vila Romana – São Paulo. Haverá um culto às 10h deste domingo. O enterro será na próxima quarta-feira (30/11) às 14h no Cemitério da Paz, Rua Doutor Luiz Migliano, 644, São Paulo.

Juntamente com a igreja brasileira, lamentamos profundamente a perda deste servo valoroso, que deixará uma lacuna irreparável. Ainda assim, alegramo-nos no Senhor por saber que ele, tal como o Apóstolo Paulo, combateu o bom combate, terminou a carreira, guardou a fé e tem reservada para si a coroa da justiça.

Fiel mensageiro da Palavra, o dr. Shedd foi incansável em seu ministério, tendo percorrido todo o Brasil como conferencista e professor, pregando e palestrando em congressos, igrejas, seminários e faculdades de Teologia. Foi exemplo extraordinário de uma vida de amor à Palavra. A literatura e o ensino teológicos no Brasil devem muito à incansável, inspiradora e comovente dedicação desse grande servo de Deus.

Ele deixa a esposa, dona Patricia Shedd, com quem foi casado por 59 anos, além de 5 filhos (Timothy, Nathanael, Pedro, Helen e Joy), 14 netos (Laura, Kelley, Rebecca, Katherine, Leander, Cayenne, Henry, Jonathan, Michael, Stephanie, Evelyn, Scott, Susan e Katie) e uma bisneta (Izabella).

O velório será a partir de amanhã (27/11) na Igreja Bíblica Evangélica da Comunhão, Rua Tito 240, Vila Romana – São Paulo. O enterro será na próxima quarta-feira (30/11) no Cemitério da Paz, Rua Doutor Luiz Migliano, 644, São Paulo.

Em breve daremos mais detalhes.

Um breve relato da vida e da obra de Russell Shedd

Russell Phillip Shedd nasceu em Aiquile, pequena cidade boliviana, no ano de 1929. Aos dez anos de idade, já falava espanhol, inglês e aprendera também o dialeto local. A semente de seu amor à Palavra germinou já na mais tenra infância, quando o menino acompanhava os pais, Leslie e Della Shedd, ambos missionários, em percursos evangelísticos pelas aldeias da Bolívia.

No início da adolescência, volta com os pais e irmãos para os Estados Unidos e cursa o segundo grau em duas instituições: Westervelt Home e Wheaton College Academy. Depois disso, a profunda sede pelo conhecimento da Palavra leva o jovem Shedd a uma intensa jornada de cursos. Primeiro, estuda Teologia no Wheaton College, onde recebe o grau de bacharel com especialização em Bíblia e Grego. Depois, decide fazer um mestrado em estudos do Novo Testamento na Wheaton College Graduate School. Muda-se então para o estado da Filadélfia e matricula-se no Faith Seminary, onde adquire o título de mestre em Teologia, em 1953. Dois anos depois, aos 25 anos de idade, conquista o grau de doutor em Filosofia (PhD) na renomada Universidade de Edimburgo, na Escócia. Em 1955, volta para os Estados Unidos e aceita o cargo de professor no Southeastern Bible College, em Birmingham, no estado do Alabama, onde conhece uma aluna, Patricia Dunn, com quem viria a se casar em 22 de junho de 1957.

Tendo os olhos e o coração voltados para a obra missionária, em 1959 o jovem casal é enviado pela Conservative Baptist Foreign Mission Society (CBFMS) para Portugal. Ali, Russell Shedd recebe com grata satisfação o encargo de acompanhar um ministério de literatura em formação. Denominado “Edições Vida Nova”, esse ministério fora fundado com o propósito de fornecer textos teológicos básicos e obras de referência bíblica para estudantes, professores e pastores.

Passados três anos, Russell Shedd e os demais missionários notaram que o programa de publicações sofria duas sérias limitações: os altos custos de impressão e a baixa e lenta demanda dos livros na minúscula comunidade evangélica portuguesa. Após muitas orações e deliberações, os olhos dos missionários voltam-se para um país do outro lado do Atlântico, com uma comunidade evangélica maior e em franco crescimento, contando ainda com a possibilidade de baixos custos na produção editorial. O plano inicial era que Russell Shedd ficasse dois anos no Brasil com o objetivo de implantar uma ação editorial em São Paulo e depois voltasse para Portugal.
Em agosto de 1962, o casal Shedd chega ao Brasil, onde permanece, sem retornar a Portugal, e onde Russell Shedd passa a ensinar e a inspirar amor à Palavra de Deus, dando continuidade ao ministério de Edições Vida Nova. Ele sempre se dedicou de corpo e alma ao estudo e ao ensino das Escrituras, seja na área do ensino teológico, seja na área de publicação de livros evangélicos que facilitassem a compreensão e o conhecimento das Escrituras, sendo mais de 25 deles de sua autoria. Por muito tempo esteve à frente do ministério de Edições Vida Nova e, embora há vários anos tivesse passado a presidente emérito, jamais deixou de amar e participar dessa obra. Também atuou como consultor da Shedd Publicações. Sua influência perdura até hoje mesmo depois de aposentado, sendo um ativo influenciador de líderes e membros da igreja brasileira.

Na Faculdade Teológica Batista de São Paulo foi professor de Novo Testamento e diretor do Departamento de Novo Testamento e Exegese. Lecionou também em outras renomadas instituições ao redor do mundo.

Somos profundamente gratos a Deus pela forma maravilhosa em que usou o dr. Shedd para influenciar e impactar a todos a quem ele teve a oportunidade de discipular, usando-o também por meio de aulas e palestras e dos muitos livros escritos ou editados por ele. Com certeza, seu exemplo e ensino serão seguidos por muitos anos. Todos os que o conheceram só podem dizer, juntamente com ele, Soli Deo gloria!

Fonte: https://vidanova.com.br/


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Uma dependência bem vinda


SÉRIE REVISTA ULTIMATO
Artigo: “Ó Jesus, entra em cena!”, de Élben César

Texto básico: Mateus 15. 21-28

Textos de apoio
– Deuteronômio 10. 12-21.– Salmo 142.– Jeremias 17. 5-14– Mateus 11. 28-30– Lucas 17. 11-19
– Hebreus 7. 21-28

Introdução
Reconhecer minha impotência diante das contingências da vida pode ser difícil, mas é inevitável. Mais cedo ou mais tarde todos nós chegaremos a esse reconhecimento, pois a encruzilhada que determina nossa escolha entre prepotência e impotência pode estar escondida logo depois da próxima “curva da vida”.

O sentimento de impotência, que num primeiro momento pode parecer desesperador, logo poderá descortinar-se para uma nova possibilidade – a dependência de Alguém maior que minhas necessidades e problemas.

A dependência de Deus é menos um lugar onde se chega do que um exercício ao qual somos convidados diariamente. E o exercício vai nos deixando cada vez mais alertas para os arroubos de independência que buscam se instalar constantemente em nosso coração. Neste estudo vamos refletir sobre o encontro de Jesus com uma mulher que buscou exercitar sua dependência diante de uma situação totalmente fora de seu controle. O que será que esta mulher, quem nem pertencia ao povo de Israel, pode nos ensinar sobre renúncia, humildade, confiança e, finalmente, dependência de Deus?

Para entender o que a Bíblia fala
A primeira reação de Jesus, diante do pedido desesperado daquela mãe cananéia, foi o silêncio (vv. 21-23a). Por que você acha que ele teve essa reação? Falta de compaixão? Dificuldade de se relacionar com uma mulher não judia? Ou outra coisa?
E os discípulos de Jesus? Por que pediram que Jesus a mandasse embora (v. 23b)? Jesus atendeu a solicitação deles?
No v. 24 Jesus rompe seu silêncio, mas reforça sua vocação primária como Messias de Israel, o povo escolhido de Deus. De certo modo a própria mulher tinha reconhecido isso, ao chamá-lo pelo título messiânico de “filho de Davi” (v. 22). Como ser humano, certamente Jesus possuía limitações de agenda e de tempo, o que tornava impossível atender todas as necessidades, por mais justas que fossem. Mas, por que a mulher não desistiu? A reação dela no v. 25 revela algo sobre o seu entendimento acerca da identidade de Jesus, mesmo pertencendo a um contexto gentílico?
Jesus responde ao piedoso clamor daquela cananéia lançando mão de um ditado já conhecido naquela época (v. 26). Podemos supor, com razão, uma abordagem gentil da parte de Jesus, destacada pela utilização da forma diminutiva, o que atenuava o desdém embutido neste ditado. De fato, aos olhos dos judeus, os gentios não passavam de cães. Por que a resposta da mulher é surpreendente (v. 27)? Perceba que ela não discute o mérito em questão. O que ela estava assumindo ao concordar com Jesus?
Qual foi o resultado da fé e da humildade daquela mulher (v. 28)? Se você fosse um dos discípulos presentes naquela ocasião, o que teria aprendido com esta mulher?
Hora de Avançar
“Ó Jesus, entra em cena!”. Não há oração mais apropriada quando chegamos à conclusão de que todos os nossos recursos foram esgotados e nada mais podemos fazer. A súplica é muito certa e direta. Em apenas cinco palavras dizemos tudo.[…] A oração “Ó Jesus, entra em cena!” não é mantra, não é mentalização, não é uma peça de pensamento positivo, não tem nada a ver com autoajuda. Não são palavras mágicas para se obter algum livramento. Antes é uma honesta confissão de impotência e de desespero. Um pedido de socorro.
(Élben César, nosso saudoso “Reve”)

Para pensar
No seu discurso em Mateus 11, especificamente no v. 21, Jesus parece deixar implícito um princípio segundo o qual as cidades pagãs de Tito e Sidom não seriam lugares propícios para as suas obras messiânicas. Talvez por isso, em coerência com este princípio geral, Mateus tenha registrado que a mulher vivia naquela região, mas “veio até ele” (v. 22), pretendendo mostrar que a mulher estava fora de sua terra natal.

Mas o que devemos sempre manter em foco é que a maravilhosa compaixão sempre ultrapassa qualquer barreira, de qualquer natureza. Deus não resiste a um coração contrito e humilde (Salmo 51. 17).

O que disseram
O grito “Senhor, tem misericórdia” deve provir de um coração contrito. Em contraste com um coração endurecido, o coração contrito é aquele que não acusa, mas reconhece sua parte na pecaminosidade do mundo. E, com isso, se prepara para receber a misericórdia de Deus.
(Henri Nouwen)  

Para responder
Como você costuma reagir diante do aparente silêncio de Deus? Com perseverança ou com desânimo? O que você pode aprender com as atitudes da mulher cananéia de nosso estudo?
Quando você ora, pedindo algo a Deus, sua atenção é dirigida mais às “doações” do que ao “Doador”? Como a oração pode se tornar um meio mais fecundo de relacionamento com Aquele que pode, ou não, satisfazer suas necessidades?
Eu e Deus
Senhor, tem misericórdia. Tem misericórdia das minhas trevas, minha fraqueza e confusão. Tem misericórdia da minha infidelidade, minha covardia, meu andar em círculos, meu vaguear e evasões. Nada peço a não ser essa misericórdia, sempre, em tudo, misericórdia.[…] Eu não peço necessariamente claridade, um caminho plano, mas somente andar de acordo com o Teu amor, seguir Tua misericórdia e confiar na Tua misericórdia.
(Thomas Merton, Diálogos com o Silêncio, Fissus, 2003, p. 121)

Autor do estudo: Reinaldo Percinotto Júnior

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Esvaziando armários de nossa vida

Todos os anos, há um momento em que olhamos nossos armários com um olhar crítico. Olhamos aquelas roupas que não usamos há tanto tempo. Aquelas que tiramos do cabide de vez em quando, vestimos, olhamos no espelho, confirmamos mais uma vez que não gostamos e guardamos de volta no armário.

Aquele sapato que machuca os pés, mas insistimos em mantê-lo guardado. Há ainda aquele terno caro, mas que o paletó não cai bem, ou o vestido "espetacular" ganho de presente de alguém que amamos, mas que não combina conosco e nunca usamos. Às vezes tiramos alguma coisa e damos para alguém, mas a maior parte fica lá, guardada sabe-se lá porquê.

Um dia alguém me disse: tudo o que não lhe serve mais e você mantém guardado, só lhe traz energias negativas. Livre-se de tudo o que não usa e verá como lhe fará bem.

Acontece que nosso guarda-roupa não é o único lugar da vida onde guardamos coisas que não nos servem mais. Você tem um guarda-roupa desses no interior da mente. Dê uma olhada séria no que anda guardando lá.

Experimente esvaziar e fazer uma limpeza naquilo que não lhe serve mais. Jogue fora idéias, crenças, maneiras de viver ou experiências que não lhe acrescentam nada e lhe roubam energia. Faça uma limpeza nas amizades, aqueles amigos cujos interesses não têm mais nada a ver com os seus.

Aproveite e tire de seu "armário" aquelas pessoas negativas, tóxicas, sem entusiasmo, que tentam lhe arrastar para o fundo dos seus próprios poços de tristezas, ressentimentos, mágoas e sofrimento. A insegurança dessas pessoas faz com que busquem outras para lhes fazer companhia, e lá vai você junto com elas.

Junte-se a pessoas entusiasmadas que o apóiem em seus sonhos e projetos pessoais e profissionais. Não espere um momento certo, ou mesmo o final do ano, para fazer essa "faxina interior". Comece agora e experimente aquele sentimento gostoso de liberdade.

Liberdade de não ter de guardar o que não lhe serve. Liberdade de experimentar o desapego. Liberdade de saber que mudou, mudou para melhor, e que só usa as coisas que verdadeiramente lhe servem e fazem bem.

Wilson Meiler 

domingo, 20 de novembro de 2016

Igrejas, comunidades terapêuticas


Pessoas que se detêm diante do sofrimento de outros, param nas ruas, ouvem queixas, socorrem vizinhos, visitam hospitais e presídios. Fazem tudo anonimamente, seguindo o exemplo do samaritano da parábola de Jesus (Lc 10.25-37).
 
Grupos cristãos que se mobilizam para socorrer necessitados, distribuindo alimentos e remédios, revezando-se ao lado de doentes, acompanhando solitários. Eles se inspiram na advertência de Jesus: “[...] sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25.40).
 
Comunidades singelas que se reúnem nas periferias, acolhendo os aflitos, juntando-se em oração, mobilizando recursos, abrindo espaços de socialização e autenticação de identidades. O desafio é se manterem fiéis ao ensino do Mestre: “[...] quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mt 20.26).
 
Igrejas mais organizadas, inseridas na vida urbana, que se empenham em superar tendências individualistas e preconceituosas, formando grupos solidários e comprometidos, juntos nas alegrias e nas tristezas da vida. São expressões de reconhecimento daqueles que experimentam o amor de Deus: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
 
Todos estes exemplos sinalizam a presença da Igreja do Senhor Jesus Cristo. Em meio ao mundo impregnado pelas inúmeras expressões do pecado individual e coletivo, apontam que é possível ser diferente. Deus quer que façamos diferença, pois “o próprio Filho do homem não veio pra ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).
 
Ao longo dos tempos, os cristãos têm sido despertados para a responsabilidade de vivenciar o evangelho em sua integralidade. A mesma mensagem de fé e esperança revelada na Bíblia ganha, em diferentes contextos, linguagem que se articula com o momento histórico. Práticas que porventura se encontram esquecidas são então atualizadas e revelam novas expressões do amor cristão.
 
Vejamos aqui um exemplo desta aproximação, considerando um conceito que vem sendo difundido a partir da segunda metade do século 20. Desde então, tornou-se comum nos meios assistenciais falar em comunidade terapêutica, na busca de resgatar princípios e implementar práticas efetivas na promoção da saúde.
 
Partiu-se da observação de que diversas instituições da sociedade não cumprem o seu papel em benefício das pessoas. Cientistas sociais foram pioneiros nessa crítica, tendo-se como referência o trabalho de Erving Goffman, caracterizando o que chamou de “instituições totais” – aquelas que se propõem a abrigar pessoas em regime fechado, prometendo suprir todas as suas necessidades. A constatação é que, em tais ambientes, a despeito de toda boa vontade propalada, tende-se ao autoritarismo, sendo imposta uma hierarquia rígida, que leva à humilhação e à desumanização dos assistidos.1 Nesse contexto, as instituições que acolhem doentes mentais mostraram-se exemplos típicos de tal perversão de propósitos.
 
No Brasil, os grandes hospitais psiquiátricos surgiram ainda no século 19 (no Rio de Janeiro) e no começo do século 20 (em Franco da Rocha, Barbacena, Niterói, Recife, Fortaleza, entre outras cidades). Em geral, eles detinham grandes extensões de terras e foram criados com a proposta de recuperação por meio das atividades rurais. Aos poucos, porém, tornaram-se grandes depósitos humanos, servindo para propósitos de exclusão social. Mesmo clínicas menores, de origem mais recente, incorreram nas mazelas anteriores, pois obedeceram à mesma lógica autoritária. Devemos reconhecer que tais instituições ainda são encontradas entre nós.
 
Surgiram então propostas de mudança, com a disposição de transformar tais instituições em comunidades que assumissem características realmente terapêuticas. O psiquiatra britânico Maxwell Jones destacou-se nessa direção, impulsionando um movimento que ganhou repercussão mundial.2 Para ele, algumas características precisam ser cultivadas nas instituições de saúde para que seus propósitos maiores sejam alcançados, tais como desenvolver um clima de convivência espontânea, em que predominem o respeito, a aceitação e a compreensão mútuos; cultivar um pacto de compromisso entre todos os envolvidos, em que direitos e deveres sejam respeitados; praticar uma liderança horizontal, sem rigidez hierárquica, exercida de forma democrática, em rodízio, que possa emergir segundo a competência, a ocasião e a necessidade; exercer o papel terapêutico como atribuição de todos os membros, mesmo daqueles com funções aparentemente simples, e dos próprios assistidos, em interação mútua.
 
Não tardou que se vislumbrasse certo paralelismo entre as propostas do movimento que crescia no campo da saúde mental e aquelas provenientes do evangelho. Além de todos os estímulos encontrados ao longo da narrativa bíblica, sobretudo nos ensinos e na própria vida do Senhor Jesus, o livro de Atos dos Apóstolos traz descrições encorajadoras sobre o dinamismo inerente às comunidades cristãs. 
 
Em evento promovido pela Fraternidade Teológica Latino-Americana, realizado em Itaici, SP, em 1977, surgiu a proposta de articular o conceito de comunidade terapêutica com a dinâmica das nossas igrejas. Coube ao doutor Daniel Schipani, teólogo e psicólogo argentino, apresentar o documento definitivo: Iglesia, comunidad sanadora! [Igreja, comunidade curadora!]. Os pontos chaves de sua tese são:
 
• A reconciliação que experimentamos por meio da obra salvadora de Jesus Cristo é também uma ação curadora de Deus em cada um de nós;
 
• Tal reconciliação tem alcance amplo, assumindo a forma de terapia da pessoa integral;
 
• Jesus Cristo pode ser tomado como o terapeuta por excelência;
 
• Cada comunidade cristã, sendo portadora da mensagem transformadora do evangelho, deve assumir seu amplo papel como agente desta terapia radical.
 
Na mesma direção surgiu o interessante livro “Curar Também é Tarefa da Igreja”, do pastor e médico psiquiatra, também argentino, Ricardo A. Zandrino.3 Ele destaca que a ação terapêutica das comunidades cristãs se expressa pela aceitação das pessoas, pela prática da confissão mútua, pelas manifestações de perdão, pelo exercício da oração intercessória, pela convivência grupal e pelo serviço cristão às pessoas e à sociedade, entre outras maneiras.
 
Está claro que tais recursos oferecidos pelas comunidades cristãs não excluem a busca pela ajuda de profissionais específicos e de instituições de saúde disponibilizados pela sociedade em geral.
 
Com esta inspiração, o Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos, fundado em 1976, assumiu a difusão da proposta de articular a prática das igrejas com o conceito de comunidade terapêutica. Tomamos como compromisso envolver-nos em participação e apoio às instituições cristãs, com a disposição de juntos encarnarmos a ampla proposta redentora de Jesus Cristo. Cremos que assim estamos sinalizando, ainda que de forma limitada, a promessa de vida plena que nos aponta para novos céus e nova terra.
 
Chamamos a atenção para o papel que os cristãos podem e devem exercer em face dos desafios de transformar a realidade da assistência em saúde mental. Vemos que isso se faz urgente, diante da disseminação do uso de substâncias psicoativas, especialmente entre os jovens da nossa sociedade. Sugerimos então alguns exemplos de contribuições que podemos oferecer:
 
• Rever preconceitos que excluem os doentes e seus familiares, abrindo espaço para acolhê-los e ajudá-los na convivência pessoal e grupal;
 
• Oferecer serviços de “acompanhamento terapêutico”, isto é, passar um período com os doentes em atividades de lazer, cultura, devoção etc.;
 
• Incentivar a criação e ampliação dos serviços, especialmente os extra-hospitalares. O espaço ocioso das igrejas e instituições religiosas pode ser muito bem usado para tal. A participação de conselheiros cristãos beneficiará os usuários dos serviços, bem como os próprios profissionais da saúde;
 
• Estimular famílias para que “adotem” pessoas para que, após anos de reclusão, possam ser reintegradas à vida em comunidade;
 
• Criar lares ou pensões “protegidas”, que ofereçam acolhimento temporário durante viagem ou alguma crise familiar, com a retaguarda de profissionais; • Participar dos conselhos de saúde, pois são eles que definem os planos de ação e o uso dos recursos no setor, recebendo fortes pressões de interesses e grupos. É necessária uma ação ordenada e coesa na direção do que realmente interessa à população.
 
Logo, vê-se que o esforço isolado de alguns não é suficiente. A força da coletividade, da organização grupal e da ação programada pode e deve ser mobilizada, garantindo resultados maiores. As igrejas cristãs dispõem, por certo, de recursos humanos e materiais para que tal propósito seja alcançado e, sobretudo, contam com inspiração e direção, quando firmadas na condução do Espírito de Deus.
 
Cabe, por fim, reafirmar que não se trata de implementar simples atos de caridade. Na verdade, a ponte da solidariedade é de mão dupla e os mais beneficiados costumam ser aqueles tidos como sãos e mais favorecidos. É sempre oportuna a frase atribuída a Abraham Lincoln, quando diante de alguém acometido por infortúnio aparentemente maior: “Ali, apenas pela graça de Deus, não estou eu”.
 
As comunidades cristãs só têm a ganhar quando se abrem em acolhimento ao doente, ao necessitado e ao diferente. Os desafios trazidos nos levam ao exercício dos diversos dons, à busca por recursos ainda latentes, à promoção de mudanças que beneficiam a todos. Afinal, as situações de aparente desgraça são, na verdade, oportunidades para a intervenção da graça de Deus. Ele pode nos usar para tal, fazendo-nos participantes das manifestações de sua misericórdia.
 
Referências bibliográficas

1. GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. Trad. Dante Moreira Leite. São Paulo: Perspectiva, 1974.
2. JONES, Maxwell. The therapeutic community; a new treatment method in psychiatry. Nova York: Basic Books, 1953.
3. ZANDRINO, Ricardo A. Curar também é tarefa da igreja. São Paulo: Nascente, 1986. 
 
• Uriel Heckert, médico psiquiatra, é mestre em filosofia e doutor em psiquiatria. É membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos e da 4ª Igreja Presbiteriana de Juiz de Fora.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Conhecendo o poder de Deus

Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam […] a incomparável grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, conforme a atuação da sua poderosa força. Esse poder ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o assentar-se à sua direita, nas regiões celestiais. (Efésios 1.18-20)
O primeiro capítulo da Carta aos Efésios pode ser dividido em duas partes. Na primeira, Paulo bendiz a Deus por nos abençoar em Cristo. Na segunda, ele ora para que Deus abra os nossos olhos para enxergarmos a plenitude dessa bênção. Louvor e oração devem sempre andar juntos. Alguns cristãos oram apenas por novas bênçãos, e esquecem das bênçãos que já receberam. Outros enfatizam que já receberam todas as bênçãos espirituais em Cristo, e não se interessam por nenhuma outra. As duas posições são incorretas.
Paulo ora especificamente para que os efésios conheçam (tanto através do entendimento como pela experiência) a esperança para a qual Deus os chamou, as riquezas da sua gloriosa herança e a incomparável grandeza do seu poder. A ênfase de Paulo está no poder de Deus. Ele tem tanta certeza da suficiência do poder de Deus que emprega várias palavras para expressar a “incomparável grandeza do seu poder”. Como eles conheciam esse poder? Porque ele foi demonstrado publicamente na ressurreição, na glorificação e na coroação de Cristo. Esse grande poder, que Deus exerceu em Cristo, está agora disponível a nós.
O principal apelo na oração de Paulo é para que seus leitores possam ter um conhecimento completo do chamado, da herança e, de maneira especial, do poder de Deus. Mas como ele espera que sua oração seja respondida? Primeiro, por meio da iluminação do Espírito Santo, que é “o Espírito de sabedoria e de revelação” (v. 17) em nosso conhecimento de Cristo. E segundo, através da reflexão acerca da revelação objetiva do poder de Deus na ressurreição e na exaltação de Jesus. Podemos notar mais uma vez a saudável combinação de revelação e iluminação, história e experiência, Cristo e o Espírito Santo.
Para saber mais: Efésios 1.15-23
>> Retirado de A Bíblia Toda, o Ano Todo [John Stott]. Editora Ultimato.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

CONVERSA FIADA

Amar a Deus é obedecer aos seus mandamentos. (1Jo 5.3a)
Alguma coisa está errada quando o marido faz juras de amor pela esposa e é infiel a ela. Alguma coisa está errada quando a mãe diz morrer de amor pelo filho, mas vive gritando com ele. Alguma coisa está errada quando o pastor se diz disposto a dar sua vida pelas suas ovelhas, mas nem sequer ora por elas. É preciso fazer diferença entre o amor de palavra e o amor em ação. Todo verdadeiro amor inclui tanto declarações verbais quanto mostras de amor. O amor convence mais pelas obras do que pelas palavras.
Na prática do amor, nosso modelo é Deus. Ele diz que nos ama e prova a autenticidade desse amor. O versículo mais conhecido e mais traduzido da Bíblia é sobre isso: “Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho” (Jo 3.16).
Deus espera que não fiquemos apenas com nossas declarações de amor dirigidas a ele. Ele quer coerência, evidências, comprovações de que de fato o amamos. Alguma coisa está errada quando dizemos que o amamos, mas não negamos a nós mesmos naquilo que causa aborrecimento a ele. Daí a palavra simples e oportuna de João: “Amar a Deus é obedecer aos seus mandamentos”. Porque Deus é absolutamente santo, ele quer e pede que sejamos santos como ele é santo. Para mostrar a ele e aos outros que nós o amamos, precisamos dar testemunho desse amor por meio de obras. Em qualquer parte da Bíblia encontramos o modelo de conduta que devemos ter e manter; o paradigma do comportamento exigido é muito alto (em comparação com o baixo nível do paradigma imposto pela sociedade).
Antes dessa exortação, João já havia feito outra, mais no estilo de Tiago do que no seu próprio: “Nosso amor não deve ser somente de palavras e de conversa” (1Jo 3.18). Peca-se menos deixando de fazer declarações de amor a Deus, ao cônjuge e aos irmãos do que fazê-las sem acompanhá-las de ações que o comprovem.
Deus nos livre do amor só de palavras!
>> Retirado de Refeições Diárias com os Discípulos. Editora Ultimato.